Prós e os contras da orientação psicológica virtual
Nos últimos anos, com a popularização da banda larga, a terapia online começou a ganhar mais espaço, principalmente quando os pacientes não têm agenda para ir ao consultório, vivem fora do país ou têm síndrome do pânico, por exemplo, que os impede de sair de casa.
Nos Estados Unidos, esse tipo de prática é regulamentado desde 2002, mas por aqui só a orientação psicológica pode ser realizada pela internet. Segundo a Sociedade Brasileira de Psicologia, não existem pesquisas que comprovem a validade da psicoterapia online propriamente dita.
Boa parte dos profissionais consultados pelo R7 diz que prefere a consulta presencial ao atendimento online. Para Erick Itakura, no Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUC-SP, uma escola-clínica que só realiza atendimento por e-mail desde 1999, esse tipo de aconselhamento só serve para problemas que podem ser resolvidos no curto prazo, e a pessoa tem que estar disposta a mudar. Nos primeiros anos, a clínica atendia dez pessoas por semestre - a maioria delas era "viciada" em bate-papo virtual. Nos últimos cinco anos, o perfil dos pacientes mudou.
- Hoje, atendemos mais ou menos 15 pessoas por mês, a maior parte dependente de redes sociais, que acabam sendo prejudicadas no trabalho e em suas relações pessoais.
Outros profissionais, como a psicoterapeuta e psicanalista Rose Araújo, alegam que a falta de vínculo com o paciente pode tornar o tratamento menos profundo e mais lento. Rose diz não gostar muito de usar a webcam por sua baixa qualidade de áudio e de vídeo, que prefere usá-la a não fazer terapia. A psicóloga só passou a usar esse recurso há pouco mais de dois anos, a pedido dos pacientes.
- Mas eu só atendo pelo Skype pacientes que não podem vir ao consultório e com quem já estabeleci um vínculo de confiança.
Para aqueles que realizam orientações pela webcam, pessoas com transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, estresse, depressão, problemas conjugais ou de comportamento costumam ser as que mais procuram essa alternativa.
Conheça algumas vantagens e desvantagens da orientação online:
Prós - acesso fácil ao psicólogo sem precisar se locomover ao consultório - facilidade em expor suas dificuldades para o psicólogo - facilita acesso à terapia - permite acompanhamento mais rápido - oferece resolução do problema mais rápido - indicada para casos breves, pontuais - maior sensação de segurança ao paciente - vence a questão geográfica
Contras - perda para o terapeuta na percepção das reações corporais, não verbais, entonação de voz - estabelecimento lento de vínculo entre paciente e terapeuta - deixa paciente em situação cômoda - pode reforçar comportamentos, como a baixa autoestima, que evitam ida ao consultório - contraindicada para problemas mais complexos, que precisam de tratamento de longo prazo - falta de pesquisas no Brasil sobre o assunto
Falta de vínculo pode tornar tratamento menos profundo
Camila Neumam e Luiz Augusto Siqueira, do R7
"Pela internet o psicólogo não consegue perceber minhas reações", diz paciente
Atendimento impede exergar emoções, mas ajuda em casos de emergência
Camila Neumam e Luiz Augusto Siqueira, do R7
A jornalista Mariana Belley, de 23 anos, faz terapia cognitiva há mais de um ano, depois que sofreu de síndrome do pânico. Em um sábado à noite, precisou recorrer à sua terapeuta, mas não tinha como ir ao consultório. Para resolver o problema, ligou para a psicóloga e pediu um atendimento de emergência pela internet. O atendimento foi feito pelo Google Talk.
- Eu precisava daquele tratamento naquela hora. Não é a mesma coisa, mas eu procurei ser o mais clara possível, e ela também. Foi estranho, porque quando eu estou ao vivo eu me entroso muito. Pela internet, ela não consegue perceber minhas reações, meus movimentos, se estou falando rápido, se estou calma. Não é a mesma percepção. E ela não tinha como me passar a calma que ela costuma transmitir quando está pessoalmente. É muito direto.
O lado bom, segundo Mariana, foi o socorro imediato.
- É mais dinâmico. Às vezes conto um fato que não quero esquecer e mando para ela por e-mail. Mas não costumo fazer, porque gosto de olhá-la e que perceba minhas reações.
No caso de Mariana, o entrosamento presencial e online foi tão significativo que a jornalista terminar seu processo de alta do tratamento com uma sessão quinzenal pela internet.
- Foi a forma que encontrei para ir me desvencilhando da terapia. Se não der certo, volto para o consultório.
A psicóloga e psicanalista Rose Araújo diz que só aceita fazer terapia pela rede quando já conhece muito bem o cliente. Foi o que aconteceu com Rômulo [nome fictício], um paulista de 28 anos que mora em Londres, onde estuda inglês e trabalha em uma locadora. Há um ano, ele teve uma depressão.
Como o tratamento lá é muito caro e aqui ele conta com convênio, Rômulo voltou ao Brasil e se tratou com ela por oito meses. Quando a crise passou, ele voltou para a Inglaterra, mas pediu a ela para manter o vínculo pela internet. Ela aceitou, desde que fosse pelo Skype e com uma webcam. Há alguns meses, uma vez por semana ela dá consulta ao cliente virtual, que está gostando muito das sessões semanais online.
- Ele mesmo fala que prefere pessoalmente, mas é melhor fazer comigo em português a um preço acessível do que com o terapeuta, em inglês.
Rose, que não é lá fã da webcam, diz que só aceitou dar consulta a Rômulo se ele aparecesse da cintura para cima.
- Não gosto da definição de imagem da webcam: se a pessoa estiver com lágrimas nos olhos, não consigo ver. Aquilo que percebo em segundos ao vivo, pela webcam posso levar minutos. Pela câmera a gente perde alguma coisa, mas acho melhor fazer assim do que nada.
publicado em 21/03/2010 às 13h52:
Pouca fiscalização torna terapia online arriscada
Orientação pela internet depende da idoneidade do psicólogo e do cliente para não fugir à lei
Camila Neumam e Luiz Augusto Siqueira, do R7
Todos os sites devem apresentar um selo de certificação concedido pelo Conselho Federal de Psicologia na página inicial
A consulta com psicólogos pela internet vem se espalhando pelo país nos últimos anos. Autorizada pela resolução nº 012/2005 do CFP (Conselho Federal de Psicologia), a prática chamada "orientação psicológica" permite que maiores de idade façam sessões pelo MSN, Skype ou qualquer outra ferramenta de bate-papo online, para que o profissional aconselhe de forma pontual, em no máximo dez sessões, seu cliente virtual.
A prática não pode ser confundida com a psicoterapia, de caráter longo e presencial.
Segundo o CFP, o profissional que ultrapassar esse prazo e desrespeitar as regras, como a de não manter o sigilo da conversa, por exemplo, pode responder a um processo ético e, em último caso, ter seu registro cassado.
Embora a prática ainda seja tímida no Brasil - dos 65 websites cadastrados no CFP, 30 estão proibidos de "clinicar", seis esperando pela renovação e 29 autorizados até esta sexta-feira (19) - deixa dúvidas quanto a sua segurança e rigor. Como o cliente pode ter a certeza que é um psicólogo que fala do outro lado da tela? E o psicólogo, de que fala com um maior? Como ter certeza de que sua orientação não vai "vazar" pela internet? É possível fiscalizar o número exato de sessões realizadas?
O caminho para fazer a consulta online é bem simples: acesse o site do profissional, preencha um cadastro com os dados, espere a resposta do site, faça o pagamento e adicione o profissional em sua rede de contatos do Skype ou do MSN. O uso da câmera pode ajudar no processo, mas não é tudo.
Todos os sites devem apresentar um selo de certificação concedido pelo CFP na página inicial. No próprio site do conselho há um link com a relação de sites que pediram autorização para funcionar. Lá, é possível conferir o status de cada site: aprovado, em renovação ou expirado.
Os que já expiraram ou estão em renovação não podem operar, segundo a conselheira do CFP, Andrea dos Santos Nascimento. Mas, conforme foi observado pela reportagem, alguns que estão com o selo expirado ou em renovação continuam oferecendo o serviço na internet.
Controle frágil
A conselheira do CFP admite que é difícil controlar o serviço.
- São coisas muito difíceis de controlar, não têm restrições. Só pedimos para o psicólogo informar que o Skype, o Google Talk e o MSN (também conhecido como Windows Live) não são ferramentas seguras. Pedimos aos clientes que não salvem a conversa em lugares públicos ou que não façam consultas em lan houses, para não ficarem expostos.
Para a conselheira, uma das maneiras de fiscalizar é confiar na conduta do profissional e do cliente que procura o serviço.
- Quem procura é que está fiscalizando, as pessoas não têm medo de denunciar. Todos os sites têm que ter informações sobre denúncia.
O trabalho de fiscalização do CFP só se limita a observar os sites que oferecem o serviço: ver se estão operando com o registro em dia e se o material divulgado está de acordo com o código de ética da profissão.
Depois de adquirir o selo, o psicólogo que fizer a orientação psicológica pela internet pode cobrar pelo serviço, optar em fazê-lo por chat, e-mail ou correspondência, e só atender menores de idade com autorização de algum responsável. Não há uma tabela fixa de preço para cada sessão de orientação psicológica, nem um tempo definido, mas a maioria dos profissionais cobra de R$ 40 a R$ 50 por cada sessão de 50 minutos.
A conselheira enfatiza que este tipo de serviço não pode ser confundido com uma terapia online, atividade não reconhecida pelo CFP. O profissional que pretende adotar este procedimento e lançar um site deve fazê-lo em caráter experimental. Traduzindo: só pode usá-lo para fins de pesquisa, depois de ser analisado pelo conselho federal e com base em critérios do CNS (Conselho Nacional de Saúde). Nesse caso, o serviço deve ser gratuito, dando o direito ao cliente de desistir do tratamento quando quiser.
De olho na câmera Pesquisadores da Universidade de New South Wales, na Austrália, demonstraram que o tratamento da depressão via internet tem resultados parecidos com as terapias presenciais. Em um estudo realizado no ano passado com 45 pessoas diagnosticadas com depressão, ao fim do programa de oito semanas, depois de seis sessões semanais online com um psicólogo, 34% delas pessoas tinham deixado de apresentar os sintomas da doença.
Segundo a psicóloga carioca Luciana Nunes, no ramo da orientação psicológica há mais de dez anos, estudos como esse são comuns nos Estados Unidos, país onde ela se especializou em Psicoterapia Breve, feita pela internet. Na volta ao Brasil, ela montou o Instituto PsicoInfo, que estuda o método. Baseada no Rio de Janeiro, Luciana faz sessões virtuais duas vezes por semana por MSN, Skype e e-mail. Nos outros dias, trabalha em seu consultório "real" no Rio de Janeiro. A especialista cobra R$ 100 por 50 minutos de orientação pelo MSN e R$ 80 por e-mail, com direito a quatro trocas de mensagens: duas perguntas do cliente para duas respostas suas.
Segundo ela, a demanda no mundo virtual é quase a mesma da presencial: pessoas com problemas de autoestima, insatisfação, que sofrem processo de separação. Entre suas clientes, a maioria é de mulheres de classe média e média alta que sofrem de transtornos emocionais, problemas de relacionamento, depressão e compulsividade.
- É um atendimento mais pontual. Só dou consulta para problemas que funcionam melhor no computador. Não atendo pessoas com depressão grave, anorexia, bulimia e pessoas com pensamentos suicidas.
Para a psicóloga, a orientação psicológica online pode ser útil para pessoas que moram em regiões com pouca assistência médica ou que estão morando em outros países.
- Às vezes a gente se esquece que o Brasil é enorme, de que há brasileiros fora do Brasil em todos os lugares do mundo. É difícil fazer um aconselhamento em lugares que têm poucos psicólogos à disposição, como uma cidadezinha do interior, ou que não falam a sua língua. Com isso, a orientação fica extremamente viável. O computador preenche esse vazio.
Para saber se está agradando, Luciana faz pesquisas de opinião com as pessoas que procuram seus serviços. Segundo ela, a taxa de aprovação é de 87%.
O também psicólogo Anderson Xavier, responsável-técnico do Insca (Instituto de Saúde Cognitiva Aplicada), que oferece a orientação psicológica pela internet, costuma atender, com ou sem câmera, executivos, profissionais liberais, dekasseguis (trabalhadores brasileiros de origem japonesa, residentes no Japão) e celebridades, em especial músicos que vivem viajando. A maioria tem idades entre 25 e 40 anos e sofre de problemas de relacionamento, sexualidade e fobia social.
Trabalhando pela internet desde 2006, Xavier aposta na orientação online como uma ponte para o tratamento presencial.
- Os clientes que se sentem satisfeitos com o atendimento querem continuar quando acabam as sessões, e, então, indicamos outros terapeutas.
Xavier conta que eles só não aceitam pessoas com transtornos mais graves de personalidade por causa da limitação de sessões determinadas pelo Conselho Federal de Psicologia. Segundo ele, transtornos de ansiedade, estresse, depressão, timidez, problemas de casais e de comportamento são os mais frequentes.
Psiquiatras são proibidos de fazer atendimento online
Conselho Federal de Medicina condena a prática entre os médicos
Camila Neumam e Luiz Augusto Siqueira, do R7
Enquanto os psicólogos podem fazer alguns tipos de orientação pelo Skype ou pelo MSN, com ou sem webcam, os psiquiatras são proibidos pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) de fazer qualquer tipo de consulta pela internet ou qualquer outra forma que não seja feita entre as quatro paredes do consultório.
Segundo João Alberto Carvalho, presidente da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), o atendimento médico não existe sem interação entre o médico e seu paciente, que deve ser realizada no consultório. O relacionamento entre o profissional e o paciente segue os preceitos de um procedimento médico, por isso deve ser feito ao vivo, não por meio de uma conversa virtual.
- Em geral, a consulta virtual não permite a avaliação dentro dos parâmetros clínicos. Não se trata apenas de uma consulta e sim de um procedimento médico.
De acordo com a ABP, a consulta virtual não é considerada um método terapêutico e deve ser denunciada aos Conselhos Regionais de Medicina.
Para o 1º Secretário do Conselho Federal de Medicina, Desiré Carlos Callegari, o uso da internet pode ser apenas um complemento da consulta desde que não envolva receita médica ou a mudança da conduta adotada na consulta anterior.
- O complemento seria eu enviar a dieta por e-mail, por exemplo. Não há problema nenhum em fazer isso, desde que não haja mudança na prescrição. Caso contrário a gente não legitima.
Segundo Callegari só é aceitável pelo conselho a consulta presencial, pois "é de suma importância e obrigatório constituir um prontuário e examinar o paciente". Para o CFM, o médico que adotar conduta irregular deve ser denunciado. Para isso, o paciente deve fazer uma queixa formal ao Conselho Regional de Medicina da cidade em que mora.
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