Palestra proferida e escrita por Gutemberg h. Moura
Boa noite!
A religião ópio do povo! Ópio é uma substância extraída da planta chamada papoula, que, deprimindo o sistema nervoso, tem efeito narcótico, entorpecente. A frase “A religião é o ópio do povo”, atribuída ao filósofo alemão Karl Marx, um dos “pais” do socialismo/comunismo, quer significar que a religião, oferecendo consolo e promessa espiritual de um futuro feliz, faz do indivíduo um alienado (perturbado, desviado, colocado sob um domínio estranho a si próprio). Marx falava da anestesia que mantém o estado de acomodação de classes sociais. Pregando a destruição da ilusão religiosa, estimulava a revolução como forma de libertação dos seres humanos oprimidos pelo sistema capitalista.
A palavra “religião” nasce do latim religione. A expressão religione, em sua beleza originária, significa presteza, precisão, em referência àquelas pessoas que estudavam meticulosamente, carinhosamente, tudo que se referia aos deuses. Com o cristianismo, lá pelos primeiros séculos depois de Cristo, surgiu essa interpretação de religião como religare (religação com Deus).
Quero considerar que a definição de religare para religião é uma bobagem. Religar vem do latim religare, religação vem do latim religatione. Religião vem de religione, que significa prestar culto com extrema atenção. Sei, essa discussão sobre palavras é estéril ou inútil, mas, por trás dessa coisa, que parece uma simples amenidade, subsiste esta ideia espantosamente absurda: o homem estava ligado a Deus, no paraíso, e, por pecar, foi dele desligado e agora, pela religião, tenta religar-se!
— A queda dos anjos é uma alegoria para definir a perdição a que se lança o espírito, quando orgulhoso de suas primeiras conquistas e que então, por isso, passa a desdenhar do culto, da reverência devida por nós ao que é mais puro e santo: a Interioridade Divina que a tudo assiste e em tudo se faz presente — (...) “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos (...)” – Paulo, em Atos, capítulo 17, versículo 28, Novo Testamento —.
Então, se Religião, quando praticada em espírito e verdade religa alguma coisa a algo, esse algo terá de ser o verdadeiro CULTO que se deve a tudo que é mais sagrado e, enfim, Deus — o culto que perdemos a cada dia, por conta do nosso orgulho de anjo — perda que remoemos no apocalipse nosso de todo dia. Seria a retomada do culto que abandonamos. Arrependimento — mudança de atitude por retorno ao centro reflexivo, e, logo, conversão.
No começo deste ano, nos Estados Unidos em Washington e na Inglaterra em Londres, pudemos ver mais um avanço dos chamados “apóstolos dos céticos”, um grupo de cientistas ateus que lidera grandes esforços para que a religião seja eliminada do mundo. Pedem que Deus seja morto na mente dos homens, por um pensamento mais livre e, consequentemente, o avanço da ciência com maior segurança.
Fizeram campanha para arrecadação de fundos; conseguiram mais dinheiro do que esperavam, pois há mais gente interessada em destruir a ideia de Deus, do que eles próprios supunham. Colocaram muitas frases nos ônibus coletivos com dizeres assim: “Provavelmente Deus não existe. Agora pare de se preocupar e aproveite a vida”.
— Viu só? O ateu se sente presidiário do dever. Quereria ver-se livre de Deus para, livre de “julgamentos”, “aproveitar”, quer dizer, “abusar”.
As frases também diziam: “Por que acreditar em um Deus? Apenas seja bom, pelo amor de Deus”.
... A nossa vidinha mental – humanos em aprendizado neste mundo – é esquizofrênica, paranóica, torturada. Um dos maiores condutores desse movimento ateísta, o filósofo americano Daniel Dennett, disse: “As religiões cresceram porque foram úteis à humanidade. As crenças serviram para dar senso ético e coesão política e social às tribos e ajudaram o homem a enfrentar doenças e a encarar seus medos. Mas a existência de Deus é hipótese improvável”.
Veja as palavras: “foram úteis”, “serviram”... Até parece que já chegamos a alguma porcaria de lugar mais avançado no caminho evolutivo. O ateu é um apaixonado por Deus. Um torturado. Um fanático religioso às avessas. É como um satanista ou luciferiano: Sentindo-se desprezado e humilhado, mas sabendo-se portador da luz, contrai-se em desgosto, grita do fundo de sua caverna, a mais valia do egoísmo, do orgulho e da satisfação dos instintos. Adere profundamente a Deus, negando-o, porém, e vasculhando as próprias carnes com o punhal da inteligência, buscando um clímax, um orgasmo, uma solução final que nunca virá!...
Não pensemos que ateus são maus, só por dizerem não aceitar a Deus. Há neles, como em toda pessoa, a mesma herança da qual não nos podemos livrar: o amor. Há também outros grupos aproximados dos ateus, como o dos agnósticos, que só admitem por conclusivos os conhecimentos adquiridos pela razão e, mesmo concedendo que haja Deus e uma ordem divina, providencial, declaram que isso não pode ser conhecido, daí o vocábulo “agnóstico”. Para mim, o melhor exemplar do agnóstico foi Bertrand Russell, filósofo matemático inglês que influenciou grandemente no século passado. Alardeando não ser cristão, é, no entanto e em realidade, um grande benfeitor da humanidade. Ativista em defesa do valor humano deixou um rastro de ricos estímulos ao raciocínio e a autocondução do indivíduo.
O ateísmo é tão importante para o nosso trabalho de aproximação com o Eu Deus, quanto os a que chamamos “inimigos”, que, nos importunando, obrigam-nos a nos aperfeiçoar, aguçar os sentidos, aprimorar a inteligência, sobreviver e nos tornarmos mais competentes, eficientes e eficazes.
Existem no mundo pelo menos duas mil religiões ou denominações religiosas, e outras 10 mil, consideradas seitas. No Brasil as mais conhecidas são 150, no mínimo. A palavra “seita”, evidente, é usada por umas para descredenciar, desacreditar outras. Ninguém quer ser “seita”, todos acreditam que aquilo que defendem é a mais pura e cristalina verdade, geralmente a única. E, cegos guiando cegos, ninguém é dono da verdade e as piores pessoas da Terra são religiosas e agiram em nome da religião.
E, contraditoriamente, religião é tudo o que há. Só um religioso do coração, somente o coração sensível saberá, verá, será Deus.
As consideradas maiores religiões, pelo menos numericamente falando, são, nesta ordem: Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo, Budismo e Judaísmo. Nos últimos tempos o Islamismo tem crescido mais. No Cristianismo, crescem mais os ditos Evangélicos; entre os católicos cresce mais o grupo denominado Carismático.
Todas se dizem “religião”, inclusive o Espiritismo, mas prevalece o espírito de “seita”. Para você ser “reconhecido” como alguém “saudável”, por qualquer desses grupos improvisados e temporariamente organizados neste nosso enredo evolutivo, você tem que ser “sectário”. Aos sectários, disfarçam chamando de “irmão”, “confrade” ou coisa que o valha. Seita é grupo fechado em que a liberdade de pensamento e expressão é combatida. Todos fingem aceitar a diferença, mas anulam os desiguais em nome da “pureza doutrinária”, que nada mais representa a não ser o fundamentalismo, o radicalismo que leva à exclusão, perseguição e morte. Quero dizer a morte em muitos sentidos, também: os assassinos da boa vontade e da boa fé enxameiam.
Será comum o cochicho nos templos. Por toda parte, segredinhos de um para outro. Por todo lado, alguém dando a entender que só uma minoria tem acesso a uma “verdade mais clara”. Só os “mais esclarecidos” têm ou “podem ter” acesso a certos “segredos”. Uma hierarquia sempre é sugerida, e a todo instante um “iluminado” desmorona junto com o seu trono fantasioso.
O fariseu vive. Veja Mateus no capítulo 23, versículo três: “(...) tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras (...)”. Coitados dos fariseus!... Servem de exemplo pra tudo que é tipo de hipocrisia. Diz, o que eles mandam é perfeito; faça! Mas, pelo amor de Deus, não faça o que eles fazem, mas só o que mandam fazer.
A hipocrisia é útil, pois um dia todos caem na armadilha do próprio discurso. Um dia todos nós acabaremos sendo aquilo que fingimos ser: bons, amorosos, generosos, amantes da verdade, da justiça e da ciência. Até lá, e ainda depois, convenhamos, temos que continuar crescendo por vontade própria. Veja, não podemos ser tão dependentes de exemplos dos outros para sermos aquilo que precisamos desenvolver. Se acreditarmos de verdade, sigamos em frente sem medo de errar — e isso, o erro, vai continuar acontecendo até pra quando só se saberá caminhando...
Vamos mudando. Deus é a mudança. Eterna mudança que não tem princípio nem fim. Dizer que Deus é eterno (sem começo e sem final), pra mim é mais inteligente do que dizer Imutável. Em religião acredito que o Espiritismo ganhou culminância por alcançar, pelo entendimento, a Caridade. Claro, a caridade, algo ainda a ser aprendido em todo o seu esplendor. Doutrina Espírita: filosofia, ciência e religião, cultura do amor e do esforço na prática das perfeições, revelação das reencarnações, processo interminável de intelectualidade e moralidade.
... Mas nenhuma religião é errada. A tradicional católica destacou a reverência, a adoração, depois combatida pelos excessos dos homens quanto a ritos, exterioridades, logo surgindo os protestantes enaltecendo a fé como preferencial ou única para salvação.
Tudo é lindo. Temos os místicos à cata do seu paraíso, munidos com exercícios, mantras, chazinhos, alimentos, incensos, amuletos talismãs, tatuagens, esquisitices e deuses maravilhosos. Temos a meditação, contribuição do nosso estacionário Oriente, levantando véus e, silenciosamente, ensinando sobre o nirvana (estado de consciência plena, paz e sabedoria).
Hoje somos infestados ainda pelos métodos e procedimentos e culturas de autoajuda; pelos palestrantes da motivação pessoal com os seus cruzamentos de elementos de correntes orientais com os das ocidentais. E agora chegou a psicologia transpessoal!
Psicologia transpessoal, uma área recente da psicologia, uma abordagem que vai além do básico e convencional tratamento de problemas mentais e emocionais. Aprofundando o estudo da alma, veio investigar os variados estados de consciência (espiritualidade, cooperação psíquica), o que naturalmente leva a ciência tradicional a aproximar-se da Mediunidade – o intercâmbio com o Mundo dos Espíritos – e, consequentemente, achegar-se ao Espiritismo e à Reencarnação.
Demais, persistem os meios extravagantes de buscar a mesma coisa de sempre: adorar, encontrar razão para suportar a existência. Os “Adoradores do Diabo”, por exemplo, com seu amor invertido por Deus, alegam ser, na Terra, os melhores cuidadores dos negócios da Igreja, ao incluírem, nas Nove Declarações da Bíblia Satânica, o seguinte: “Satan tem sido o melhor amigo que a igreja já teve, pois ele sustentou seus negócios durante todos esses anos”.
Querem dizer, com certa razão, que o Diabo e o Inferno são ameaças utilizadas com astúcia, pelos padres e pastores, para prender os fiéis e garantir o poder das igrejas graças ao temor da “condenação eterna” e à ambição de todos no sentido de ganhar a salvação e o Céu.
E os satanistas apontam que Deus, sim, é extremamente perverso e assassino, ao contrário deles, que são indulgentes para com os humanos. Lembram o que está escrito na Bíblia, no Antigo Testamento, no livro de Josué, capítulos seis a oito, sobre as destruições das cidades de Jericó e Ai. Consta que o próprio Deus manda e dá poder para que o ambicioso povo de Israel, em busca da terra prometida, Canaã, cometa impunemente muitos milhares de assassinatos, derramando impiedosamente o sangue dos homens, sem poupar mulheres, crianças e idosos.
Os imperativos da adoração, sobre os enlouquecidos da alma, levam a outras coisas como o presleyterianismo, da igreja erguida a Elvis Presley – definido como o verdadeiro Jesus Cristo. Presleyterianos declaram representar “a única religião que será importante no próximo milênio”. Os maradonistas, da Argentina, estão certos da salvação pela graça do Deus verdadeiro encarnado no seu célebre jogador de futebol Diego Maradona.
E a organização Família Internacional, antes, simplesmente Família; ainda anteriormente, A Família do Amor, constitui os originários Meninos de Deus, seguidores do novo profeta Moisés David (Mo), famosos principalmente nas décadas de 70 e 80. Pregaram e mal dissimulam a prostituição como louvável quando para arrecadar dinheiro visando custear a busca do reino de Deus. E aí, em meio a incestos e orgias, crianças eram candidamente chamadas de “prostitutas de Jesus”.
Perante todas essas coisas, como tomar ânimo para viver Deus? Basta-nos confiar na INTUIÇÃO, pois nós somos AMOR a DEUS, e isso é tudo que somos em essência. É só aceitar o ESPÍRITO, que, por si, é o que irremediavelmente existe. É a partir da intuição que se atinge o racionalmente demonstrado. O que hoje se faz concreto foi intuição (Deus adentrando, conhecimento espiritual direto) — o Verbo “Faça-se!”. O Real nasce da simples Vontade!
Paulo, apóstolo, em Romanos, capítulo oito, revela que toda a criação geme e espera, até agora, estando sujeita à corrupção. E nós, aqueles que temos as primícias do Espírito, também gememos, à espera de redenção. E o Espírito, ajudando-nos nas nossas fraquezas, intercede por nós com gemidos inexprimíveis.
Diante dessas passagens bíblicas, pastores tradicionais nos dizem que isso significa a natureza toda estar à espera do momento em que tudo será transformado para a pureza, por força do divino sobrenatural. E a humanidade, enquanto não soa a “última hora”, deveria servir-se da oração em “línguas”, as chamadas “línguas estranhas”, para melhor se apossar das bênçãos divinas. Ao “orar em línguas”, o orador se tornaria insuflado pelo Espírito Santo e seriam então, esses, os “gemidos inexprimíveis” (os pronunciamentos enrolados e incompreensíveis), por meio dos quais o nosso espírito estará sempre “carregado com a energia do Espírito Santo”.
De nossa vez, nos coube entender que, de fato, a criação, sujeita à ação do homem, toda ela, de que naturalmente o homem faz parte traz em si as dores da própria condição evolutiva, como, por exemplo, os animais, que expressam os seus sentimentos e inteligência, cada qual com a sua beleza e força de individualidade. Cabe a nós, que “temos as primícias do espírito”, terrível responsabilidade a respeito da malversação da vida que levamos inseridos na Natureza, e a vitória se soubéssemos cultivar a harmonia, viver com amor.
Sobre os gemidos inexprimíveis citados por Paulo, os aprendizes associam com o fenômeno das línguas estranhas, narrado em Atos dos Apóstolos, capítulo dois. Isso é o Pentecostes, quer dizer, o dia da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, em que estes “começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem”.
Nos ensinamentos espíritas vemos que esse fenômeno — A fala espontânea em línguas que não foram previamente aprendidas, chamada xenoglossia, naquele momento com os apóstolos, nada mais foi que uma explosão de mediunidade, a comunicação dos Espíritos em várias línguas por várias pessoas para que toda uma multidão tivesse acesso à mensagem transmitida pela Espiritualidade Superior, cada qual entendendo melhor por ouvir na língua que lhe era familiar.
Eu mesmo quero considerar que tais “gemidos inexprimíveis” são sentenças espirituais ultrassintéticas dos nossos anjos guardiões, sussurros de consolação, tristeza ou estímulo por conta do nosso coração vacilante, palavras ditas em secreto à nossa sensibilidade, embalando-nos a guisa de intercessores por nós, assistindo-nos em espinhosa jornada para a luz, e isso é religião.
Façamos uma prece. — Jesus: que as nossas palavras possam traduzir uma intenção operante e suave no nosso crescimento espiritual, crescimento que seja enriquecido pelo sentimento da verdadeira religião, a religião natural do coração sensível, da compaixão e da liberdade do desprendimento que nos ajuda a superar, aos poucos, o nosso resistente egoísmo.
Sendo a nossa incapacidade de perdoar, uma das maiores causas de sofrimentos para nós, por ser uma conduta antirreligiosa, auxilia-nos a, em vez de tanta relutância em oferecermos o nosso perdão a quem julgamos que nos tenha ofendido, simplesmente deixarmos de nos ofender tanto, o tempo todo, na maioria das vezes nutilmente.Excluindo motivos de ofensa, um dia deixarei de ter “inimigos meus”. Confiante na verdadeira Justiça, nada terei a perdoar se nada tiver sobre o que me ofender.
— Auxilia-nos, Jesus! Mãe Maria: Socorre-nos, pelo amor de Deus! Tende piedade de nós!
Muito obrigado!
Palestra proferida por Gutemberg Honorato de Moura a 20 de fevereiro de 2009
O autor é jornalista e Assessor de Imprensa do Deputado Akira Otsumo
Local: Colônia Espiritual Bezerra de Menezes – Rua Joaquim Alves Pereira, nº 2.151 – Jardim Botafogo – Campo Grande/MS.